Por Claudio Bastos e Caroline Fassina
Comissão Especial de Resíduos, Circularidade e Materiais da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS)
Quando se fala em economia circular, a primeira imagem costuma ser a da reciclagem. Ela é importante, mas o conceito vai além. Circularidade significa usar melhor os recursos desde o início: planejar obras e processos para gerar menos perdas, aproveitar materiais por mais tempo e evitar que itens ainda úteis sejam enviados ao descarte. Afinal, na circularidade completa, conceitos como lixo e descarte deixam de existir.
Na prática, é uma mudança de lógica. Em vez de extrair, produzir, usar e jogar fora: lógica linear, a proposta da circularidade é reduzir o consumo desnecessário, reaproveitar materiais, reparar equipamentos, recuperar componentes e encontrar novos usos para aquilo que antes era visto apenas como resíduo. Isso pode diminuir custos, reduzir impactos ambientais e abrir espaço para inovação e novos negócios.
A Baixada Santista tem grande potencial para avançar nesse caminho. A região reúne construção civil, indústria, porto, logística, comércio, serviços, universidades, profissionais qualificados e ambientes de inovação. Ao mesmo tempo, convive com os desafios de um território costeiro muito urbanizado, ambientalmente sensível e cada vez mais exposto aos efeitos da mudança do clima.
Por isso, a economia circular não deve ser tratada como uma pauta distante da realidade das empresas. Ela pode ajudar a tornar a região mais eficiente, competitiva e preparada para o futuro.
A construção civil é um dos setores mais importantes para a economia regional e também um dos que mais utilizam materiais e geram resíduos. O desafio não é somente encaminhar corretamente o que sobra das obras. É evitar que esse material se transforme em sobra.
Isso começa no projeto, passa pela compra de insumos, pela organização do canteiro, pelo controle de perdas, pela separação dos resíduos e pelo reaproveitamento sempre que houver viabilidade técnica e econômica. Metais, madeira, vidro, plásticos, gesso e agregados, por exemplo, podem voltar a ter valor quando são bem separados, processados e destinados. A mesma lógica de circularidade pode ser aplicada também ao uso de energia, à valorização dos recursos humanos e à tomada de decisão nas instituições. Por exemplo, já pensou em como a flexibilização de regimes de trabalho ou a instalação de sedes em ambientes de coworking permitem que empresas reduzam o gasto de energia e gasto de materiais de seus funcionários e operações? Isso também é trabalhar com mais circularidade.
Há oportunidades também nas obras de infraestrutura, na drenagem urbana, na pavimentação, na manutenção de equipamentos públicos e na requalificação de áreas da cidade. Projetar com visão de longo prazo, considerando manutenção, durabilidade e possibilidade de reaproveitamento, é bom para o ambiente, mas também para a qualidade e o custo das soluções.
A circularidade só avançará de fato se houver maior aproximação entre quem vive os desafios e quem produz conhecimento. Empresas conhecem suas dificuldades: o custo dos materiais, as perdas, os prazos apertados, o transporte, a falta de espaço, as exigências legais e a dificuldade para encontrar destino ou uso para determinados resíduos.
Às universidades e aos centros de pesquisa cabem transformar essas dificuldades em estudos, testes, tecnologias e soluções aplicáveis. Pesquisa aplicada é aquela que parte de problemas reais. Da mesma forma, empresas e municípios podem se beneficiar de conhecimento científico para tomar melhores decisões, testar alternativas e avaliar resultados, atuando como verdadeiros pilotos das evidências científicas em constante atualização
Essa conexão é especialmente importante na construção civil, mas vale também para todas as áreas intensivas em uso de materiais e energia da nossa região, como a indústria de embalagens, o porto e a logística. Nenhuma instituição conseguirá fazer a transição dessas cadeias lineares, para cadeias mais circulares, sozinha. Será preciso reunir empresas, profissionais, universidades, poder público, recicladores, empreendedores e comunidades em torno de objetivos comuns.
A AEAS e o Parque Tecnológico de Santos podem ajudar a aproximar esses atores. A Associação reúne profissionais que conhecem de perto os desafios de projetos, obras, infraestrutura e gestão ambiental. O Parque Tecnológico conecta empresas, universidades, startups e poder público, criando espaço para desenvolver, testar e aprimorar soluções voltadas às necessidades da região.
O caminho pode começar por algo simples e objetivo: ouvir os setores, identificar os principais materiais e resíduos gerados, entender os obstáculos e selecionar oportunidades que possam ser testadas. Projetos-piloto, capacitação, parcerias e indicadores de resultado são instrumentos importantes para transformar boas ideias em práticas que funcionem no dia a dia.
O seminário Engenharias mais Circulares, que será realizado em 25 de setembro, às 14h, na sede da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos, marca o início dessa conversa em escala regional.
O encontro reunirá representantes da construção civil, indústria, porto, logística, universidades, poder público e instituições de inovação. A programação contará com Ana Carolina Famá, que abordará questões ambientais, regulatórias e de gestão de resíduos; Jurandir Zullo Junior, que tratará de planejamento, dados, tecnologia e mudanças climáticas; e Aline Martinez, que discutirá urbanização costeira, Soluções Baseadas na Natureza e ecoengenharia marinha.
Mais do que um evento, a proposta é abrir uma agenda de cooperação. A Baixada Santista tem capacidade técnica, diversidade econômica e desafios suficientes para se tornar referência em soluções circulares. O passo mais importante agora é unir quem conhece os problemas, quem desenvolve conhecimento e quem pode colocar as soluções em prática.




