Artigo A Tribuna. A sociedade do cansaço

Por BEATRIZ LAURINDO.
Administradora, gestora ambiental com MBA em Gestão e Inovação para Cidades Inteligentes.
Coordenadora do MNODS Guarujá

Há um cansaço que não vem apenas do corpo. Não nasce só das noites mal dormidas, das contas antes do salário, das filas ou das promessas que envelhecem antes de se cumprir. Há um cansaço mais fundo e coletivo: esperar que alguém, em algum gabinete, ainda se lembre de que governar é servir.

A sociedade carrega uma exaustão que já não cabe nos discursos oficiais. As pessoas estão cansadas de reuniões que não resolvem, audiências que não escutam, planos que não saem do papel e soluções adiadas. Cansadas de ver a vida real virar planilha fria, enquanto a dor segue sem prioridade ou respeito.

Gestores e políticos, muitas vezes, se afastaram da escuta essencial. Falam em desenvolvimento, inovação e participação social, mas esquecem o rosto humano de cada palavra. A política sem alma vira protocolo. A gestão sem sentido público vira máquina. E a máquina sem ética mói aqueles que deveria proteger.

Byung-Chul Han descreve a “sociedade do cansaço” como a exaustão pelo excesso de desempenho. Há também uma dimensão política: a população obrigada a lutar para ser ouvida, acessar serviços básicos e fazer o óbvio ser tratado como urgente. A cidadania virou maratona sem chegada. Poucos ainda têm energia para brigar. Não por falta de consciência, mas por desgaste.

A maioria tenta sobreviver ao mês, cuidar da família, preservar a saúde mental e trabalhar. Enquanto isso, o sistema segue burocrático e distante do sofrimento social. O mais perverso é que o cansaço produz silêncio, confundido com concordância. Mas não é. É fadiga: a alma dizendo “hoje não consigo mais”. É o cidadão que participou, assinou pedidos, foi a reuniões, enviou ofícios, ouviu promessas e recolheu a esperança.

Ainda assim, uma centelha insiste. Em quem continua perguntando, fiscalizando, propondo e mobilizando, há uma resistência rara: não a dos palanques, mas a miúda e luminosa de quem se recusa à anestesia coletiva. Talvez o desafio seja transformar o cansaço em consciência organizada: fazer da decepção uma bússola, da indignação uma proposta e da tristeza uma linguagem pública.

Os sistemas apostam que os sensíveis desistirão e que os éticos se calarão. Mas toda transformação começa quando alguns permanecem de pé. Talvez seja isso que nos salve: a coragem de continuar. Quando a sociedade se cansa de ser ignorada, pode dormir por um tempo. Mas, quando desperta, já não pede licença. Levanta-se como maré — e maré nenhum gabinete contém para sempre.

Artigo publicado no jornal A Tribuna em 22 de junho de 2026.