O Porto de Santos foi palco de uma operação inédita no país nesta segunda-feira (13): o navio porta-contêineres CMA CGM Iron, da armadora CMA CGM, recebeu 500 toneladas de etanol — equivalentes a 635 mil litros do biocombustível — em abastecimento realizado no terminal da Santos Brasil, em Guarujá.
O combustível foi fornecido pela Copersucar, transportado por barcaça adaptada pela Bunker One e armazenado pela AGEO Terminais. A iniciativa foi promovida por quatro associados do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI): CMA CGM, Copersucar, Santos Brasil e AGEO Terminais.
Durante a cerimônia, o diretor-presidente do IBI, Mário Povia, destacou o protagonismo da operação:
“O Brasil tem condições únicas para liderar a descarbonização do transporte marítimo mundial. Este abastecimento é a comprovação de que o compromisso ESG dos nossos associados vai além da declaração de intenções: ele se materializa em operações concretas, com impacto real na redução de emissões.”
O evento contou também com a presença do presidente do Conselho de Administração do IBI, Mauro Sammarco, e da presidente do IBI Social, Eliane Sammarco. Mauro ressaltou a integração entre os diferentes elos da cadeia de infraestrutura como chave para a transição energética.
O navio e a inovação tecnológica
Entregue em 2025, o CMA CGM Iron tem capacidade para transportar 13 mil TEU e é o primeiro de uma série de 12 porta-contêineres equipados com o motor Everllence-B&W G95ME-C10.5-LGIM, certificado para operar com etanol.
Segundo Christine Cabau Woehrel, vice-presidente executiva da CMA CGM, a certificação abre caminho para o uso mais amplo de combustíveis de menor intensidade de carbono. Após o abastecimento em Santos, o navio seguiu para Paranaguá (PR) e depois para o Sri Lanka.
O combustível e a cadeia produtiva
O etanol utilizado tem a mesma especificação do etanol anidro empregado na mistura com gasolina no Brasil, certificado pelo programa RenovaBio. De acordo com Tomás Manzano, presidente da Copersucar, o uso do etanol pode reduzir em cerca de 70% as emissões de gases de efeito estufa.
Logística e segurança
O diretor de Operações da Bunker One no Brasil, Daniel Caldas, explicou os ajustes técnicos para o transporte seguro do etanol, destacando o treinamento da tripulação e o plano de emergência voltado ao risco de incêndio. Ele ressaltou ainda a vantagem ambiental: em caso de vazamento, o etanol evapora rapidamente, sem causar impacto hídrico como combustíveis fósseis.
Porto na rota dos combustíveis verdes
Para o diretor-presidente da Santos Brasil, Antônio Carlos Sepúlveda, sediar a operação consolida o papel do Tecon Santos na transição energética da navegação. A secretária-executiva adjunta do Ministério de Portos e Aeroportos, Luíza Amorim Motta, classificou a operação como um marco para a logística brasileira.
Perspectivas globais
O transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões mundiais de CO₂. A Organização Marítima Internacional (IMO) estabeleceu meta de emissões líquidas zero até 2050. Manzano dimensionou o potencial: se 10% do combustível de navegação fosse substituído por etanol, seriam necessários cerca de 50 bilhões de litros, frente à produção atual de 37 bilhões no Brasil.
O CEO da Bunker One, Flavio Ribeiro, estima que a frota mundial apta a operar com combustíveis não fósseis crescerá dos atuais 70 para mais de 400 navios nos próximos anos.
“Essa operação pode ser considerada um marco na transição energética da indústria marítima em escala mundial”, afirmou Ribeiro.




