Artigo ODS no DL. Relatório da ONU alerta: ODS precisam de impulso final até 2030

Por Fábio Tatsubô
Coordenador Regional BS do Movimento Nacional ODS SP

O Relatório da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, divulgado nesta semana, é um convite à reflexão sobre o que já conseguimos e sobre o que ainda falta para avançarmos na Agenda 2030.

Os dados do relatório ressalta que os ODS permanecem como o grande plano coletivo para garantir paz, prosperidade e sustentabilidade. Os dados acumulados ao longo de mais de uma década de implementação mostram que é possível alcançar avanços significativos, mas somente quando o compromisso político, o financiamento, a inovação e a cooperação internacional (que do ponto de vista que vejo, ainda muito tímido, ou não aprendemos a acessar) estiverem alinhados. Em outras palavras, o progresso não depende apenas de boas intenções, mas da capacidade de unir esforços e transformar promessas em ações concretas.

O que aprendemos com uma década de experiência é que os ODS realmente fazem diferença. Desde 2015, políticas bem estruturadas, investimentos contínuos e cooperação entre países melhoraram a vida de bilhões de pessoas. Os resultados são claros: quase um bilhão de pessoas passaram a ter acesso à água potável segura, 1,2 bilhão conquistaram saneamento básico adequado, a eletricidade chega hoje a 92% da população mundial, o acesso à internet disparou de 40% para 74% e, pela primeira vez na história, mais da metade da humanidade está coberta por programas de proteção social. Também houve avanços importantes na saúde: as novas infecções por HIV caíram 30% e as mortes relacionadas à AIDS diminuíram 35% entre 2015 e 2024.

Por trás desses resultados existe uma conquista muitas vezes pouco lembrada: a chamada “revolução dos dados”. Há dez anos, só havia informações para metade dos indicadores dos ODS. Hoje, um banco global reúne mais de 3,2 milhões de pontos de dados, cobrindo quase todos os indicadores. Isso permite que os países identifiquem onde o progresso está acelerando, onde ainda existem lacunas e quais políticas realmente funcionam.

Em resumo, os números mostram que quando há união entre compromisso político, financiamento adequado, inovação e cooperação entre todos, os resultados aparecem. Mais do que estatísticas, são sinais de que é possível transformar realidades e dar passos concretos rumo a um futuro mais justo e sustentável.

Apesar disso, o relatório mostra que dos 139 objetivos acompanhados, apenas 36% estão bem encaminhados, 49% avançam lentamente e 15% retrocederam em relação a 2015. Ainda assim, há conquistas adicionais: a maioria das regiões caminha para erradicar a pobreza extrema até 2030; 30,2 milhões de crianças deixaram de sofrer atraso no crescimento; partos assistidos por profissionais qualificados aumentaram de 80% para 87% e devem chegar a 90% até 2030; 99 reformas legislativas ampliaram a participação feminina nos parlamentos, que passou de 22,3% para 27,4%; o trabalho infantil caiu em mais de 20 milhões de casos; o desemprego global atingiu 4,9% em 2025; e a capacidade de geração de energia renovável per capita cresceu 14% em apenas um ano, tornando-se mais de duas vezes maior do que em 2015.

Mas o relatório também nos lembra que o caminho não é linear. Estima-se que a taxa global de pobreza extrema ainda esteja em 10% em 2026, apenas três pontos abaixo de 2015, muito distante da meta de erradicação. Há 273 milhões de crianças e jovens fora da escola, e um em cada cinco jovens entre 15 e 24 anos não estuda nem trabalha, enfrentando risco de desemprego quatro vezes maior do que os adultos. Aproximadamente 1,16 bilhão de pessoas vivem em habitações precárias ou assentamentos informais, o risco de extinção cresce em todos os grupos de espécies e apenas 45% das áreas-chave de biodiversidade estavam protegidas em 2025. Além disso, as mudanças climáticas se intensificam: em 2025, as temperaturas globais atingiram 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais e a concentração de dióxido de carbono alcançou seu ponto mais alto em dois milhões de anos.

Olhando para esse balanço, minha impressão é que o relatório não deve ser lido apenas como um diagnóstico, mas como uma oportunidade de aprendizado. Ele mostra que avanços são possíveis quando há cooperação de todos. Ao mesmo tempo, evidencia que os desafios são profundos e exigem atenção contínua. O tom que fica é construtivo: reconhecer o que já foi conquistado, mas também assumir que ainda há muito a ser feito. Os próximos quatro anos serão decisivos.

Em última análise, o relatório de 2026 nos lembra que progresso e desafios caminham lado a lado, e que o futuro dependerá da nossa capacidade de ampliar o que já funciona sem perder de vista as lacunas que ainda persistem.

Matéria no Diário do Litoral de 11/07/2026
https://flip.diariodolitoral.com.br/impresso/?data-publicacao=2026-07-11&veiculo=diario-do-litoral&ed_impressa_jn=917