Cientista de Praia Grande representa o Brasil em Fórum da Universidade de Oxford

Há menos de uma década, Ergon Cugler atravessava as catracas do metrô paulistano pedindo moedas para conseguir chegar às aulas na Universidade de São Paulo (USP). Neste domingo, 17 de maio de 2026, o professor e pesquisador autista de 27 anos sobe ao palco da Universidade de Oxford, no Reino Unido, como um dos palestrantes do Brazil Forum UK.

Com o tema “Brasil líder de uma nova ordem global: diálogos para um mundo multipolar”, o Fórum acontece em meio à rápida expansão da inteligência artificial e à intensificação da circulação de desinformação nos ambientes digitais. O debate busca discutir como essas transformações afetam a democracia, a soberania digital e a capacidade dos Estados de estabelecer regras para o ambiente tecnológico.

Uma voz brasileira em Oxford

A presença de Ergon no Fórum, que reúne nomes como Luís Roberto Barroso, Erika Hilton, Manuela d’Ávila, Eduardo Paes e Daniela Lima, representa não apenas reconhecimento profissional, mas também a oportunidade de colocar o Brasil no centro das discussões sobre inteligência artificial e o futuro da democracia.

Fome, resistência e políticas públicas

Filho de uma agente comunitária de saúde de Praia Grande (SP), Ergon mudou-se para São Paulo aos 18 anos para cursar Gestão de Políticas Públicas na USP. O início foi marcado por privações severas: chegou a passar fome e a depender de moedas para custear o transporte.
“Sou fruto de políticas públicas de permanência estudantil. Foi o restaurante universitário que me garantiu as três refeições, e as bolsas de pesquisa que me permitiram permanecer na universidade. A educação colocou comida no meu prato e me deu dignidade”, relata.

Na universidade, transformou sua vivência em produção científica e atuação pública. Colaborou em estudos para o Congresso Nacional, coordenou iniciativas de cooperação internacional durante a pandemia da Covid-19 e acumulou mais de 1.000 produções acadêmicas, com foco em inteligência artificial, poder das Big Techs e enfrentamento à desinformação.

Do Conselhão ao palco internacional

Em 2025, Ergon tornou-se o primeiro autista a ocupar uma cadeira no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) da Presidência da República, como especialista em soberania digital e desinformação. Agora, em Oxford, participa de painel ao lado de Tai Nalon, Mário Aquino Alves e Marie Santini, trazendo evidências e propostas para enfrentar a erosão da verdade comum em ambientes digitais.

“Chegar em Oxford é um sonho realizado que abre portas para outros sonhos. Apesar de eu ser o primeiro de Praia Grande a ser convidado para palestrar em Oxford, quero garantir que eu não seja o último”, afirma.

Uma trajetória que inspira

Do litoral paulista a um dos centros de poder mais prestigiados do mundo, a história de Ergon Cugler reforça um lembrete essencial: quando políticas públicas garantem permanência, inclusão e oportunidade, novas vozes podem emergir para influenciar o futuro do planeta