Por Luciana Marotto Homrich
Coordenadora Geral do Movimento Nacional ODS Santa Catarina
Empreendedora de Inovação e Impacto socioambiental
Minha relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável não começou com o lançamento da Agenda 2030. Ela teve início ainda no período dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, os ODM, entre 2001 e 2010, quando atuei junto ao Governo Federal e acompanhei a utilização desses compromissos internacionais na orientação de políticas públicas, programas e estratégias de desenvolvimento.
Naquele período, pude vivenciar a incorporação dos ODM à Política Nacional de Esporte. O esporte era compreendido para além da atividade física, da competição ou do lazer: era também instrumento de inclusão social, educação, promoção da saúde, fortalecimento comunitário e desenvolvimento humano. Essa visão integrada do desenvolvimento também esteve presente em outras frentes da minha atuação no Governo Federal, especialmente no Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente — CONANDA, onde exerci ativamente a função de conselheira governamental.
Essa experiência consolidou uma convicção que continua orientando minha atuação: grandes agendas globais somente fazem sentido quando dialogam com a vida real das pessoas. Uma meta internacional pode parecer distante até ser traduzida em uma quadra ocupada por crianças e adolescentes, em oportunidades oferecidas a uma comunidade, em políticas de inclusão, no fortalecimento de vínculos ou no acesso de grupos historicamente excluídos a direitos e espaços de participação.
Foi também nesse contexto que percebi que os objetivos globais não pertencem apenas aos governos ou aos organismos internacionais. Eles funcionam como uma bússola para orientar políticas, organizações, empresas, projetos e escolhas pessoais. Por isso, costumo provocar: a Agenda 2030 e os ODS não são “da ONU”. Eles resultam de uma construção coletiva, realizada por países, instituições e, principalmente, pessoas que participaram dos espaços de diálogo e construção.
Quando vim para Santa Catarina, essa compreensão passou a orientar de forma ainda mais intensa minhas práticas pessoais e profissionais. Minha atuação se aproximou das áreas de inovação, sustentabilidade, empreendedorismo, desenvolvimento territorial e impacto social. Passei a trabalhar diretamente com os diferentes atores deste grande ecossistema: empresas, universidades, governos, organizações da sociedade civil, empreendedores, movimentos e lideranças comunitárias.
Em diferentes contextos, observei que muitos territórios possuem conhecimento, talentos, ativos e oportunidades. O que frequentemente falta é conexão. Há pessoas com ideias, mas sem acesso às redes que poderiam apoiá-las. Há organizações com soluções que não conseguem chegar a quem enfrenta o problema. Há instituições interessadas em gerar impacto, mas que desconhecem iniciativas existentes em seu próprio território. E há recursos disponíveis, porém distantes de quem poderia transformá-los em resultados concretos.
Foi assim que compreendi com maior clareza um dos papéis que passei a desempenhar: conectar pessoas, conhecimentos, causas e oportunidades. Muitas vezes, essa atuação começa com uma conversa, uma indicação, um convite ou a percepção de que duas pessoas precisam se conhecer. Dessas conexões podem nascer projetos, parcerias, políticas públicas, novos negócios, formações e ações de impacto real.
A passagem dos ODM para os ODS ampliou essa visão. A Agenda 2030 mostrou que pobreza, educação, saúde, trabalho, igualdade, inovação, justiça, clima, meio ambiente e governança não podem ser enfrentados isoladamente. No Brasil, o reconhecimento do ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial reforçou ainda mais a necessidade de enfrentar desigualdades estruturais.
Desde então, utilizo os ODS como uma lente para orientar decisões: quem será beneficiado? Quem ainda ficará de fora? Que impacto será gerado no território? Quais atores precisam participar? Como acompanhar os resultados? A iniciativa resolve uma necessidade imediata ou contribui para uma transformação duradoura?
Essas perguntas ajudam a transformar uma agenda global em compromisso cotidiano. E foi essa compreensão que me levou, cada vez mais, à mobilização em rede e à atuação junto ao Movimento Nacional ODS Santa Catarina, aonde estou, efetivamente, desde 2019.
Publicado no Diário do Litoral (3/09/2026)
https://flip.diariodolitoral.com.br/impresso/?data-publicacao=2026-09-04&veiculo=diario-do-litoral&ed_impressa_jn=1038




