Educação socioambiental: um compromisso urgente para as redes municipais de ensino da Baixada Santista

Por Viviane de Paula
Auditora ESG ABNT/PR2030 , auditora ODS- Plataforma ODS , PMO – DEPODS na Prefeitura de Santos , Mestre em Educação e Doutoranda em Educação pela UNADES

A emergência climática, a crise ambiental e as desigualdades sociais afetam diretamente as cidades brasileiras, por meio de enchentes, deslizamentos, falta de saneamento, poluição e perda da biodiversidade. Nesse contexto, a educação tem papel estratégico na formação de cidadãos capazes de compreender os problemas do território, participar das decisões públicas e construir soluções coletivas e justas. Com essa perspectiva, a pesquisa de doutorado em Ciências da Educação na UNADES analisa a implementação da educação socioambiental nas redes municipais de ensino e os desafios para consolidá-la na gestão escolar e no cotidiano das escolas, em consonância com o Objetivo 8 do PNE 2026-2036.

A pesquisa parte de uma questão fundamental: como transformar as diretrizes previstas no Objetivo 8 do Plano Nacional de Educação em práticas concretas de educação para a sustentabilidade? A existência de leis, planos e orientações nacionais é essencial, mas não garante, por si só, mudanças efetivas nas escolas. Entre a formulação de uma política pública e sua realização existe um caminho complexo, que envolve formação de professores, infraestrutura, recursos, apoio técnico, organização das secretarias de educação, participação da comunidade e compromisso dos gestores.

Por isso, o estudo pretende investigar não apenas a existência de projetos ambientais nas escolas, mas também como a sustentabilidade está incorporada ao planejamento das secretarias municipais de educação, aos projetos político-pedagógicos, à formação continuada dos profissionais, à gestão de resíduos, água e energia, à prevenção de riscos, à preparação para eventos climáticos extremos, à promoção da justiça ambiental e à participação de estudantes, famílias e sociedade civil.

A Baixada Santista apresenta características que tornam esse debate especialmente relevante. Os nove municípios da região — Santos, São Vicente, Praia Grande, Guarujá, Cubatão, Bertioga, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe — possuem realidades distintas, mas compartilham importantes desafios socioambientais. A região reúne áreas costeiras, manguezais, unidades de conservação, zonas portuárias e industriais, morros, rios, canais e territórios sujeitos a alagamentos, deslizamentos e outros impactos relacionados às mudanças climáticas. Também apresenta desigualdades sociais e diferentes níveis de acesso a serviços públicos e infraestrutura urbana.

Como parte da pesquisa, convido 3 redes municipais de ensino dos municípios da Baixada Santista a participarem desse processo. A proposta é construir um diagnóstico colaborativo sobre a situação atual da educação socioambiental nas redes e identificar as visões de futuro dos gestores e profissionais responsáveis pelo planejamento e pela implementação das políticas educacionais. Serão analisadas as visões políticas e pedagógicas dos gestores, os fatores organizacionais que favorecem ou dificultam a incorporação de práticas socioambientais, a distância entre as diretrizes nacionais e as ações desenvolvidas nas escolas, além dos desafios estruturais enfrentados por cada rede.

O objetivo é reconhecer experiências, identificar potencialidades, compreender dificuldades e contribuir para a construção de estratégias adequadas à realidade e ao nível de maturidade de cada rede. Muitas escolas já realizam projetos importantes, embora essas iniciativas nem sempre estejam sistematizadas, integradas ao planejamento educacional ou articuladas a uma política permanente.

A pesquisa pretende auxiliar as 3 redes municipais na construção ou no aperfeiçoamento de seus planos educacionais para o período de 2026 a 2036, especialmente no que se refere ao Objetivo 8 — Educação Socioambiental. Esse processo poderá contribuir para a definição de objetivos, metas, indicadores, programas de formação, ações intersetoriais, responsabilidades institucionais, mecanismos de participação social e estratégias de monitoramento e avaliação. A criação de uma linha de base permitirá conhecer a situação atual de cada rede, acompanhar sua evolução ao longo do tempo e ajustar as estratégias sempre que necessário.

A educação socioambiental vai além de ensinar práticas como reciclar e economizar água. Ela relaciona meio ambiente, economia, saúde, cultura, território, direitos humanos e justiça social, reconhecendo que os impactos ambientais atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Também desenvolve pensamento crítico, cooperação, responsabilidade coletiva e participação cidadã por meio da análise dos problemas locais e da criação de soluções para a comunidade.

A implementação do Objetivo 8 dependerá da participação de diversos atores. Secretarias de educação, escolas, professores, estudantes, famílias, universidades, organizações sociais, empresas e demais órgãos públicos podem contribuir para essa agenda. A construção de políticas consistentes exige escuta, colaboração e disposição para aprender com as experiências locais.

A Baixada Santista pode assumir uma posição de liderança nesse processo, construindo uma agenda regional que respeite as particularidades de cada município e estimule a cooperação entre as cidades. Investir em educação para a sustentabilidade é investir na prevenção de riscos, na saúde pública, na proteção dos territórios, na redução das desigualdades e na formação de cidadãos preparados para enfrentar os desafios do século XXI.

O convite está aberto às redes municipais de ensino de Santos, São Vicente, Praia Grande, Guarujá, Cubatão, Bertioga, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, para a adesão de 3 redes neste estudo . A participação nessa pesquisa será uma oportunidade para refletir sobre o presente, planejar o futuro e transformar a educação socioambiental em um eixo estruturante da escola pública. A construção do Objetivo 8 começa pelo diálogo, pelo diagnóstico e pela disposição de transformar boas intenções em ações permanentes, inclusivas e conectadas à realidade dos territórios.

Confira no Diário do Litoral (25/07/2026)
https://flip.diariodolitoral.com.br/impresso/?data-publicacao=2026-07-25&veiculo=diario-do-litoral&ed_impressa_jn=948