Artigo ODS no DL. Economia criativa, sustentabilidade e impacto social: um caminho para cumprir a Agenda 2030

Por Viviane de Paula, Doutoranda em Educação, MBA em Economia criativa, auditora ESG ABNT/ PR2030, auditora ODS- Plataforma ODS e Antonio Eduardo Campos Sheen, Gestor Público, Pós-graduação em Gestão Cultural: Cultura, Desenvolvimento e Mercado, Pós-graduação em Gestão de Serviços Públicos e MBA em Gestão de Eventos.

Quando se fala em sustentabilidade, o debate costuma focar em energia limpa, resíduos, clima e infraestrutura. Mas há uma dimensão frequentemente subestimada e que dialoga diretamente com a agenda ESG e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): a economia criativa.

Moda, design, audiovisual, música, artes visuais, literatura, games, publicidade e novas mídias formam um ecossistema que movimenta bilhões de dólares no mundo e gera empregos, renda e identidade. Segundo relatório da UNCTAD, as exportações globais de bens criativos somaram cerca de 509 bilhões de dólares em 2015, mostrando que não se trata de um nicho, mas de um pilar relevante da economia contemporânea.

No Brasil, esse potencial é ainda maior. A diversidade cultural do país alimenta um cardápio amplo de produtos e serviços criativos: do cinema independente às festas populares, das cooperativas culturais em periferias aos ateliês de moda sustentável, passando por coletivos de artes visuais e iniciativas digitais. Grandes centros urbanos concentram parte expressiva desse mercado, mas experiências inovadoras surgem também em cidades médias e pequenos municípios, conectando cultura, geração de renda e desenvolvimento local.

O ponto central, na lente ESG/ODS, é entender como esse setor pode ir além da geração de PIB e empregos para se tornar vetor de transformação socioambiental. A resposta está na integração entre três dimensões: criatividade, sustentabilidade e impacto social.

Na dimensão ambiental, cresce o número de iniciativas criativas alinhadas à economia circular: uso de materiais reaproveitados, redução de desperdícios, design de produtos pensados para durar mais, ser consertados, reutilizados ou reciclados. A moda é um dos setores em que essa virada é mais visível, com marcas apostando em upcycling, tecidos de menor impacto, cadeias produtivas mais transparentes e campanhas que estimulam o consumo consciente. No audiovisual, surgem produções preocupadas em reduzir a pegada de carbono de filmagens, com uso de energias renováveis, logística otimizada e gestão de resíduos em sets. No design, despontam abordagens regenerativas, que buscam não só “não degradar”, mas contribuir para restaurar ecossistemas e territórios.

Na dimensão social, a economia criativa se consolida como ferramenta de inclusão e fortalecimento comunitário. Projetos culturais em favelas, coletivos de artistas periféricos, iniciativas em comunidades quilombolas e indígenas, redes de economia solidária e negócios sociais criativos mostram que cultura não é apenas “entretenimento”: é estratégia concreta de redução de desigualdades. Jovens em situação de vulnerabilidade acessam formação, ampliam repertório, geram renda e constroem trajetórias profissionais em áreas como música, audiovisual, design gráfico, produção cultural e mídias digitais. Há também um impacto simbólico relevante: reforço da autoestima, valorização de identidades e narrativas que historicamente foram invisibilizadas.

Essas iniciativas dialogam diretamente com ODS como Trabalho Decente e Crescimento Econômico (ODS 8), Redução das Desigualdades (10), Cidades e Comunidades Sustentáveis (11) e Paz, Justiça e Instituições Eficazes (16), entre outros. Espaços culturais e ações criativas funcionam como pontos de encontro e diálogo em territórios marcados por conflitos, exclusão e ausência do Estado, fortalecendo a coesão social.

Apesar do potencial, ainda há obstáculos importantes. Um deles é a dificuldade de medir, de forma consistente, o impacto social e econômico da economia criativa. Falta padronização de indicadores e sistemas de monitoramento que permitam demonstrar, com evidências, resultados em renda, empregos, inclusão, redução de vulnerabilidades e efeitos ambientais. Sem dados, é mais difícil acessar financiamento, orientar políticas públicas e convencer investidores a apoiar o setor de maneira estruturada e contínua.

Outro desafio é garantir que os benefícios da economia criativa não fiquem concentrados em grandes conglomerados de mídia e tecnologia, reproduzindo desigualdades já existentes. Plataformas globais ampliam o alcance, mas também concentram poder econômico e decisório. Criadores independentes, pequenos empreendedores criativos e iniciativas territoriais seguem enfrentando barreiras de acesso a crédito, tecnologia, qualificação, distribuição e mercados internacionais.

Do ponto de vista das políticas públicas, o tema ainda é tratado, muitas vezes, de forma fragmentada. A agenda de cultura anda separada da de desenvolvimento econômico, que por sua vez nem sempre conversa com a de meio ambiente e de inclusão social. Para que a economia criativa cumpra seu potencial como motor de desenvolvimento sustentável, é necessário construir políticas integradas: marcos regulatórios estáveis, mecanismos de fomento contínuos (e não apenas editais pontuais), uso do poder de compra do Estado para contratar bens e serviços criativos sustentáveis, estímulo à formação técnica e empreendedora e apoio à transição ecológica das cadeias produtivas criativas.

Empresas que levam a sério suas estratégias ESG também têm um papel relevante. Ao incluir a economia criativa em seus investimentos sociais e em parcerias estratégicas com territórios, podem gerar valor compartilhado: apoiar projetos que fortalecem comunidades, impulsionam a agenda ambiental, ampliam a diversidade e a inclusão e, ao mesmo tempo, aproximam a marca de públicos-chave, reduzindo riscos reputacionais e contribuindo para a Agenda 2030.

Articular criatividade, sustentabilidade e impacto social é, em síntese, apostar em um modelo de desenvolvimento que reconhece a cultura como eixo estruturante da vida em sociedade. Cidades e regiões que entenderem essa conexão e estruturarem políticas e parcerias duradouras tendem a sair na frente na construção de um futuro mais inclusivo, democrático, diverso e ambientalmente responsável.

O estudo “Economia criativa, sustentabilidade e impacto social”, que inspira esta reflexão, será apresentado na III International Conference of Creative Economy and Public Policies (ICCEPP‑UNESCO), reforçando que essa agenda, nascida em territórios concretos, já ocupa lugar de destaque no debate internacional sobre políticas públicas, ESG e ODS.

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