Artigo ODS no Jornal da Orla. Empatia para transformar o mundo: Omotenashi e os ODS

Por Fábio Tatsubô
Coordenador Regional BS do Movimento Nacional ODS SP

Desde sempre fui assim, mas não sabia que existia uma palavra, um conceito da cultura dos meus pais: Omotenashi (おもてなし). Embora muitas vezes seja traduzido como “hospitalidade”, seu significado vai muito além disso. Literalmente, quer dizer “servir de coração, sem máscaras e sem esperar retorno”. A palavra nasce da junção de omote (superfície) e nashi (ausência), ou seja, sem fachada, sem fingimento. É agir com verdade e atenção plena, antecipando as necessidades do outro com pequenos gestos de cuidado.

Esse conceito surgiu na cerimônia do chá (sadō), em que cada movimento é um ato de presença e respeito. Com o tempo, tornou-se um valor essencial da sociedade japonesa, refletido no modo como se serve, se trabalha e se vive. Omotenashi é antecipar o que o convidado pode precisar antes mesmo que peça, é servir com sinceridade sem esperar recompensa, é atenção meticulosa aos detalhes para encantar e valorizar, é empatia para compreender necessidades e desejos, e é tratar todos com igualdade, sem distinção.

Quando olhamos para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), percebemos como a filosofia do Omotenashi se conecta diretamente com a Agenda 2030. Antecipar necessidades dialoga com o ODS 9, que trata de inovação e infraestrutura, e com o ODS 12, sobre consumo e produção responsáveis. A sinceridade se relaciona ao ODS 16, que busca fortalecer instituições eficazes e promover justiça. A atenção aos detalhes valoriza o trabalho decente e o crescimento econômico, como propõe o ODS 8. A empatia se conecta ao ODS 3, de saúde e bem-estar, e ao ODS 10, que trata da redução das desigualdades. Já o princípio de não fazer distinção reflete diretamente o ODS 5, sobre igualdade de gênero, e novamente o ODS 10, reforçando a importância de tratar todos com respeito e dignidade. E, por fim, o espírito colaborativo do Omotenashi encontra eco no ODS 17, que trata das parcerias e meios de implementação, lembrando que a verdadeira transformação só acontece quando unimos esforços, construímos alianças sinceras e trabalhamos juntos para que nenhum objetivo fique apenas no papel.

No fundo, Omotenashi é mais do que hospitalidade: é uma filosofia de vida que nos ensina que transformar o mundo começa com pequenos gestos de cuidado e atenção. Ao relacionarmos essa prática aos ODS, criamos uma ponte entre tradição e futuro, entre cultura e sustentabilidade. Empatia, aqui, não é apenas sentimento, é ação. E, como mostra o Omotenashi, é essa ação sincera que pode nos levar a um mundo mais justo, inclusivo e sustentável.

Pratico gestos silenciosos todos os dias, sem que me peçam. Já ajudei, gerei renda e esperança, mesmo usando horas e energia que não tinha. Aprendi que preocupação não transforma nada, ação sim! Mas dá trabalho e ocupa o espaço chamado tempo. Vivemos em uma sociedade do “eu, só eu, pra mim”, onde opiniões rasas  e de julgamentos cuspidos nas redes sociais, vale mais que o fazer. Nesse cenário, dedicar tempo e recursos sem querer nada em troca parece algo de pouco valor. E fica a pergunta, a quem julga um erro, nitidamente fora da curva, quantos minutos algum dia, dedicou seu tempo para ajudar o outro, desprendido de interesse, além do ‘eu’ e ‘eu e meus problemas’?

Este ano foi desafiador. Fui além dos meus limites, coloquei à prova minhas convicções, mas é assim que aprendi: deixar a empatia florescer mesmo em solo árido. Transformar não é falar ou se perder em preocupações, é agir. Cada gesto verdadeiro, por menor que pareça, carrega a força de uma semente capaz de germinar um mundo mais humano e próspero. Que o próximo ano nos inspire a praticar, com ainda mais intensidade, o espírito do omotenashi.

Confira:
https://jornaldaorla.com.br/noticias/jornal/26e27-dezembro-2025-n-3-255/


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